necessidade da manutenção de animais
interessados, a polêmica prossegue.
Se o ideal seria que todo animal nunca saísse de seu habitat, como justificar a existência dos
zoológicos? Há quem os defenda e a razão não é mostrar espécies silvestres às crianças
Na animação Madagascar, da Dreamworks,uma zebra do zoológico de Nova York convence
seus colegas leão, hipopótamo e girafa que a vida em cativeiro é enfadonha e que a verdadeira felicidade está na selva.
Fogem e, depois de muitos percalços até a ilha africana que dá nome ao filme, encaram a dura realidade: eles não
sabem mais brigar pela própria comida, nem se defender dos predadores. A conclusão, a
que o melhor lugar do mundo é aquele em que se aprendeu a viver. Na vida real, o tema é delicado. Profissionais dos
zoológicos e defensores dos direitos dos animais de todo o mundo vêm travando discussões sobre a necessidade da
manutenção de animais
prossegue.
Diretores de zoológicos dos EUA, por exemplo, estudam a viabilidade de pôr fim à exibição de animais de grande porte,
principalmente ursos e elefantes. A justificativa é mais do que válida: esses bichos têm demonstrado grande variação
de comportamento, em alguns casos até neuroses, e problemas físicos, como artrite, decorrentes da falta de espaço nos
cativeiros. Por aqui, Ibama e sociedades de zoológicos têm uma convicção: o cativeiro é necessário. Não para poder
mostrar animais silvestres às crianças como muitos acreditam. Apesar de ser cobrado de todos os zôos que desenvolvam
atividades de educação ambiental, há outras duas razões de maior urgência para os próprios animais.
A primeira delas diz respeito à pesquisa, que garante a reprodução em cativeiro e a conseqüente manutenção da espécie.
“Até uns anos atrás, quase não havia mais micos-leões-dourados no Rio de Janeiro. Graças ao trabalho dos
zoológicos, eles voltaram. Foi feita a reprodução em cativeiro e, pouco a pouco, eles foram reintegrados à natureza. O
pessoal os treinou a buscar comida, a se defender”, exemplifica o coordenador geral de fauna do Ibama, Ricardo
Soavinski. O diretor técnico científico do Parque Zoológico de São Paulo, José Luiz Catão Dias cita também o caso dos
gorilas provenientes da África equatorial. “Lá, eles estão em constante ameaça, por conta da caça, de doenças
transmitidas pelo ecoturismo, pela devastação que diminui seu habitat. O que garantiria a continuação da espécie se não a
reprodução em cativeiro? Os zoológicos sobrevivem, sem dúvida, sem gorilas, tanto que só há um em todo o Brasil que
mantém esses animais
zoológicos?”, questiona.
O segundo ponto levantado por quem defende a manutenção dos animais em cativeiro é, justamente, a dificuldade para
eles se reintegrarem à natureza. Além de desaprenderem a se virar na mata, ao sair de seu habitat, eles passam a
carregar bactérias, protozoários e vírus que, se levados aos demais animais dessa e de outras espécies, podem
causar verdadeiros desastres ecológicos. Legalmente, é proibido retirar animais da natureza, seja para a exibição em
zoológicos ou qualquer outro fim. No entanto, há os animais que estão nos zôos desde antes da promulgação da lei, e que
não se readaptariam, e também os provenientes do tráfico. “O ideal seria mesmo que os animais nunca saíssem
do seu habitat”, confessa Catão. “Mas há uma retirada absurda de bichos da natureza e isso quem faz
não são os zoológicos. Os que podem ser repatriados são, mas muitos não podem e a própria União Internacional para a
Conservação da Natureza (órgão da ONU) recomenda que sejam mantidos em cativeiro”, explica. Algumas
estatísticas falam de 12 milhões de animais silvestres capturados pelo tráfico anualmente. Outras calculam que passe
dos 38 milhões.
Contrária à existência de zoológicos, Ila Franco, presidente da União Internacional do Animal (Aila), duvida da função
educativa dos mesmos. “O homem mantém o animal em cativeiro como fazia com os escravos. Diz que ele não
tem alma, então pode acorrentar, pôr
que eles vivem”, condena. No entanto, ela considera aceitável a iniciativa de manter nos zôos os animais que não
podem ser repatriados. “Mas tem que atender às necessidades do bicho. Os elefantes, por exemplo, caminham 30
km por dia na natureza e usam a lama para proteger a pele dos insetos. Se forem construídos santuários que ofereçam
isso a eles, aí sim, se estará realmente pensando no bem-estar animal”, conclui.
Condições mínimas - Não existe um padrão mundial que determine as condições em que os animais devem ser mantidos em
cativeiro. No Brasil, a lei de zoológicos é de 1983 e foi elaborada por técnicos com base em experiências nacionais e
internacionais de sucesso em reprodução e bem-estar. Há também uma instrução normativa que determina tamanhos e
condições mínimas dos cativeiros, alimentação e segurança de acordo com a espécie e a obrigatoriedade de se manter
pessoal capacitado, sendo um veterinário e um biólogo, além de programas de educação ambiental e pesquisa. O órgão
responsável por fiscalizar o cumprimento da lei é o Ibama. Em sua vistoria mais recente, foram avaliados os zoológicos
do Sudeste, onde estão 70 dos 140 do País. Os resultados foram os seguintes: 42,85% estão adequados, 11,4% foram fechados e os demais receberam um termo de ajuste de conduta, com a ameaça de serem também fechados caso não
façam as adaptações necessárias.
“Muitas vezes a população apela para não fecharmos o zoológico, porque cria-se um vínculo, ele faz parte da
atividade social, do lazer dessa localidade. Mas não podemos fazer nada. A prioridade é o bem-estar do bicho”,
diz Soavinski, do Ibama. Ele conta que em 80% dos casos são governos municipais e estaduais que abrem e mantêm
os zoológicos e que os problemas decorrem basicamente da falta de investimentos: “Principalmente em cidades
pequenas em que o turismo é irrelevante, eles não conseguem bilheteria suficiente para complementar a verba.
Chegam até a alegar que, por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal não puderam investir o que deveriam”.
Se há animais submetidos a maus-tratos, garante, é por falta de espaços adequados, de funcionários treinados e de
dinheiro para alimentá-los como manda a lei. Castigo é coisa de circo. “São pessoas sérias, dedicadas. Só o fato
de trabalharem com animal demonstra isso”, avalia. Indagado se os interesses econômicos não seriam o real
motivo da existência dos zôos, Soavinski é taxativo: “Imagine quanto custa fazer um recinto correto para felinos
de grande porte, com fosso, sem grade, sem jaula, e ainda alimentá-los com quilos e quilos de carne diariamente?
Zoológico não dá lucro. Tanto que a maioria é pública”, defende.
Por Cláudia Zucare Boscoli


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